A leitura crítica do estudo que todo executivo cita sobre ROI de IA
Todo mundo cita os '95% de retorno zero em IA'. Poucos leram a metodologia. Fomos à fonte primária do MIT: o que o estudo realmente mediu, onde ele é frágil, e por que a conclusão central sobrevive mesmo assim.
TL;DR: O estudo do MIT por trás dos "95% de ROI zero em IA" é real, com metodologia declarada: 300 iniciativas revisadas, 52 organizações entrevistadas, 153 líderes em survey, entre janeiro e junho de 2025. Tem limites que os próprios autores admitem: amostra não randômica, sucesso definido por relato em entrevista, não por auditoria financeira. Mesmo com esses limites, três achados específicos do próprio relatório sustentam a mesma conclusão: o gargalo é organizacional, não tecnológico. Para C-level: pare de discutir se o número está certo e comece a discutir o que ele está medindo de verdade.
A leitura crítica do estudo que todo executivo cita sobre ROI de IA
Antes de descartar os "95% de retorno zero" como marketing de consultoria, ou de repetir o número em toda apresentação de board sem checar a fonte, vale a pena ler as oito páginas onde ele nasceu.
"Um número vira clichê no momento em que todo mundo cita e ninguém lê a nota de rodapé. Fui atrás da nota de rodapé." — Paulo Castello, CEO Fhinck, setembro de 2026
Em abril, publicamos um artigo explicando os quatro motivos pelos quais 95% das empresas não têm retorno com IA. O artigo continua de pé. Mas uma pergunta que recebemos depois, de mais de um executivo, merece resposta separada: esse número de 95% é forçado por consultoria querendo vender remédio para um problema que ela mesma inventou?
É uma pergunta boa. E a resposta exige ir na fonte, não na manchete.
De onde vem o número, exatamente
O estudo é "The GenAI Divide: State of AI in Business 2025", publicado em julho de 2025 por pesquisadores do MIT NANDA (Networked Agents and Decentralized AI), com quatro autores nomeados: Aditya Challapally, Chris Pease, Ramesh Raskar e Pradyumna Chari.
A metodologia, declarada no próprio documento: revisão sistemática de mais de 300 iniciativas públicas de IA, entrevistas estruturadas com representantes de 52 organizações, e respostas de survey de 153 líderes seniores, coletadas em quatro grandes conferências do setor entre janeiro e junho de 2025.
Não é uma citação de segunda mão nem um número solto de post de LinkedIn. É pesquisa com amostra declarada, período declarado e autor nomeado. Isso já separa o estudo de boa parte do que circula como "dado de mercado" sem fonte rastreável.
A objeção do conflito de interesse (e por que ela não se sustenta contra o estudo em si)
Os próprios autores anteciparam essa desconfiança. O relatório inclui uma nota de confidencialidade explícita: todos os dados e citações de empresa foram anonimizados "para garantir neutralidade e evitar qualquer percepção de promoção comercial ou opinião", e um aviso de que "as visões expressas neste relatório são exclusivamente dos autores e revisores, e não refletem a posição de nenhum empregador afiliado".
Isso não elimina o uso comercial que terceiros fazem do número depois de publicado, inclusive consultorias, inclusive plataformas como a nossa. Mas é uma distinção que importa: o dado tem uma origem acadêmica declarada. O jeito como cada empresa usa o dado para vender alguma coisa é outra camada, e essa camada sim merece ceticismo permanente.
Só que existe uma versão mais afiada da mesma objeção, e essa a nota de anonimização não cobre. O MIT NANDA — sigla para Networked Agents and Decentralized AI — é um projeto de pesquisa cuja missão declarada é construir infraestrutura para agentes de IA autônomos com memória e protocolos de comunicação entre agentes. E a saída que o relatório recomenda para o problema que ele descreve é, em linhas gerais, sistemas de IA agêntica com memória e capacidade de aprender continuamente — exatamente o tipo de infraestrutura que o próprio NANDA pesquisa. Isso não é prova de má-fé dos autores. É o tipo de conflito que deveria fazer qualquer leitor cuidadoso desacelerar antes de repetir o número como verdade neutra.
O estudo também não passou incólume pela crítica acadêmica de fora. Kevin Werbach, professor da Wharton, avaliou publicamente que a alegação central do relatório é "insuficientemente sustentada, com o vínculo ao MIT potencialmente enganoso". Paul Roetzer, do Marketing AI Institute, apontou que a definição de "sucesso" usada no estudo era estreita demais e recomendou não dar peso à pesquisa como está. Nenhum dos dois é concorrente comercial dos autores — são vozes acadêmicas e de mercado, nomeadas, discordando publicamente.
Onde o estudo é frágil (e os próprios autores dizem isso)
Aqui está a parte que quase ninguém cita, porque não cabe numa manchete.
Na página 6 do relatório, sob o título "Limitações da pesquisa", os autores escrevem, em tradução direta: "Estes números são direcionalmente precisos, baseados em entrevistas individuais em vez de relatórios oficiais das empresas. O tamanho da amostra varia por categoria, e a definição de sucesso pode diferir entre organizações."
Três fragilidades reais, ditas pelos próprios autores:
- A amostra não é aleatória. As 300 iniciativas vieram de divulgação pública e de participantes de conferências específicas do setor de tecnologia. Empresa que não fala publicamente sobre IA, ou que não frequenta esse tipo de evento, não entrou na conta.
- "Sucesso" foi definido por relato, não por auditoria. O próprio relatório define uma implementação "bem-sucedida" como aquela em que usuários ou executivos "comentaram" ter causado impacto de produtividade e/ou P&L marcante e sustentado. Isso é percepção relatada em entrevista, não balanço contábil auditado.
- O número é por projeto, não por empresa. Uma empresa que roda vinte iniciativas de IA e acerta uma parece "95% de fracasso" na contagem por projeto, mesmo que essa única iniciativa bem-sucedida mude o resultado da companhia inteira.
Um estudo que admite os próprios limites com essa clareza é mais confiável, não menos, do que um número repetido sem nenhuma nota de rodapé.
O que sobrevive à leitura crítica
Aqui está o ponto central deste artigo, e a razão de valer a pena ler o estudo inteiro em vez de só a manchete: mesmo descontando as três fragilidades acima, três achados específicos do próprio relatório apontam pra a mesma causa, e nenhum dos três depende do número 95% estar certo.
| Achado do estudo | O que ele mostra | Por que aponta pra causa organizacional |
|---|---|---|
| Empresas com mais de US$ 100 milhões de receita lideram em volume de piloto, mas levam 9 meses ou mais para escalar, contra 90 dias das empresas médias | Tamanho e orçamento não aceleram a adoção | O gargalo não é acesso a tecnologia, é velocidade de decisão organizacional |
| Parceria externa teve taxa de sucesso de 67%, o dobro de builds internos | Comprar a capacidade pronta funciona melhor que construir por conta própria | A empresa não sabe operacionalizar IA sozinha, mesmo tendo o time técnico |
| 90% dos funcionários usam IA pessoal para o trabalho, enquanto só 40% das empresas têm licença oficial | A ferramenta já entrega valor percebido no nível individual | A falha não é a tecnologia, é a empresa não ter capturado e redesenhado ao redor do que já funciona informalmente |
Esses três pontos não vêm do resumo executivo que todo mundo cita. Vêm do corpo do relatório, e nenhum dos três muda de sentido se o percentual real de fracasso for 80% em vez de 95%. O padrão é o mesmo em qualquer um dos dois cenários: a tecnologia funciona no nível individual, e falha no nível organizacional porque ninguém redesenhou o trabalho ao redor dela.
Há um dado do próprio relatório que parece contradizer a manchete, e vale citar exatamente porque ele reforça esse argumento em vez de enfraquecê-lo: ferramentas genéricas como ChatGPT e Copilot têm uma taxa de piloto-para-implementação em torno de 83%, bem longe dos "95% de fracasso" que viraram clichê. O estudo não se contradiz — ele mede coisas diferentes. Ferramenta genérica, usada individualmente, adota rápido porque não exige que a empresa redesenhe processo nenhum. Sistema de IA sob medida, que precisa se encaixar num fluxo de trabalho real, é onde o fracasso se concentra. Essa distinção, que está no corpo do relatório mas desaparece na manchete de 95%, é o argumento organizacional inteiro resumido numa linha.
O teste para o seu board
Da próxima vez que alguém citar "95% de ROI zero em IA" numa reunião, a pergunta certa não é "isso é verdade?". É: quem mediu isso, com que amostra, e o que exatamente foi contado como sucesso?
Se ninguém souber responder, o número virou boato reciclado. Se a resposta for a que está neste artigo, o número continua sendo um dado real, com limite conhecido, e com uma conclusão que resiste à leitura cética: o problema nunca foi só a tecnologia.
Conclusão
O estudo do MIT NANDA existe, tem autor, data e metodologia declarada. Tem limites reais, admitidos pelos próprios pesquisadores: amostra não aleatória, sucesso medido por relato, contagem por projeto. Mesmo assim, os dados que ele traz sobre empresas grandes travando na escala, parcerias externas performando melhor que times internos, e o uso pessoal de IA superando de longe a adoção oficial, sustentam a mesma tese sem depender do percentual exato.
Vale registrar o óbvio: somos parte interessada nessa discussão, porque vendemos justamente a tese de que o gargalo é organizacional. Por isso este artigo aplica a si mesmo o padrão que pede do leitor — fonte primária citada, nomes de quem discorda, números que você pode conferir sozinho, em vez de pedir para confiar na nossa palavra.
A Fhinck atravessou essa transição entre 2023 e 2025: reduzimos o time de 50 para 6 pessoas com a receita crescendo 50% no período, redesenhando o trabalho ao redor do agente em vez de comprar ferramenta e esperar o resultado aparecer sozinho. Se você quer entender como isso se aplica à sua operação, agende uma conversa.
Perguntas frequentes
O estudo dos "95% de ROI zero em IA" é confiável? É um estudo real, publicado pelo MIT NANDA em julho de 2025, com metodologia declarada: 300 iniciativas de IA revisadas, entrevistas estruturadas com 52 organizações e survey com 153 líderes seniores. Os próprios autores admitem limites (amostra por conferências, sucesso medido por relato, não por auditoria financeira). É confiável como retrato de um recorte, não como estatística universal.
O número 95% é exagerado por quem quer vender consultoria de IA? Os autores anonimizaram dados de empresa e citação exatamente para evitar essa suspeita, e o próprio relatório carrega um aviso de que as opiniões são só dos autores. Isso não impede que terceiros usem o número para vender solução, inclusive nós. A honestidade correta é separar o dado (real, com metodologia declarada) do uso comercial que se faz dele (que exige ceticismo, sempre).
Se a amostra do estudo é pequena, por que ele ainda importa? Importa porque os padrões qualitativos que ele revela, não o percentual exato, se sustentam com outras evidências dentro do próprio relatório: empresas grandes demoram mais para escalar piloto que empresas médias, parcerias externas têm taxa de sucesso maior que times internos, e o uso pessoal de IA pelos funcionários é muito maior que a adoção oficial da empresa. Esses três fatos apontam pra causa organizacional, não tecnológica, mesmo que o número 95% caia para 80% ou suba para 97% em outro estudo.